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6 de julho de 2008

Uma personificação de sentimentos

sobre Terra Erma, de Helton Paulino

Por Nathan Cirino
(Publicado na 7ª edição da revista/jornal/zine A Margem)

O lançamento de Terra Erma, novo filme do diretor Helton Paulino, reuniu no dia 18 de abril diversos cinéfilos campinenses na Associação Comercial de Campina Grande. O trabalho foi feito durante o mês de janeiro deste ano, somando cerca de 42 horas de trabalho de uma equipe composta por aproximadamente 35 pessoas.

O filme de quinze minutos de duração foi apresentado primeiramente por seu produtor, Ronaldo Nerys, e em seguida a palavra foi passada ao idealizador do projeto. Helton agradeceu ao próprio Ronaldo e também a Jhésus Tribuzi, assistente de direção e continuista, pelas contribuições a ele conferidas para realização do curta-metragem. Passada a solenidade – rápida, diga-se de passagem – fomos entregues à terra erma.

Inicialmente, o que chama a atenção são os créditos, inseridos criativamente em elementos do cenário. A partir daí já poderíamos deduzir o grau de cuidado e meticulosidade que a produção iria adotar. O curta mostra a história de um homem e sua necessidade de contemplar os encontros e despedidas em uma estação rodoviária. Somem-se aqui as oscilações de humor e toda a carga dramática que o personagem toma para si de acordo com as situações que presencia e teremos a premissa do filme. Um contexto simples, direto, mas rico em sua abordagem e sutilezas. Ver aquela simbiose entre homem e lugar é como viajar dentro do verdadeiro personagem: a rodoviária. Vagamos por ela através de um homem silencioso, que por vezes questionamos ser real ou não. O mérito de Helton está na sensibilidade de mostrar ao público mais que um contemplador errante, está em mostrar uma entidade, um símbolo que bebe, fuma, chora e ri. Quase uma personificação dos sentimentos ali presenciados.

Quando li uma apresentação do filme e fui informado de que os quinze minutos de curta-metragem não apresentavam falas, soube instintivamente que estava diante de um bom roteiro. Como afirma Michael Rabiger, cinema é ação: “tire o som de um filme e você saberá se está diante de um roteiro bem estruturado”, constata em seu livro Direção de Cinema. Um roteiro que se faz entender pelas ações, pelos olhares e planos tão próximos dos olhos quanto dos sentimentos. Claro que não estou aqui desmerecendo o som, mas apenas ilustrando a força da ação dramática explicitada no vídeo. Aliás, o som por sua vez é outro ponto forte. Guga Rocha mais uma vez realiza um trabalho competente, rico em suas variações de elementos. Diversas vezes, a sensação de ambiente movimentado e cheio de transeuntes foi transmitida unicamente através do som. Graças a ele, mesmo em planos solitários do personagem principal, sentimos toda a correria e agitação de um terminal rodoviário sem nos darmos conta de que tamanha informação está sendo passada para nós unicamente pelo trabalho do diretor de áudio.

Outro ponto técnico muito interessante no filme é a direção de arte, assinada por Carlos Mosca. Os tons azulados em sua maioria e os demais tons frios são quase unanimidade do filme. Não há um item sequer com alguma cor quente, que invoque proximidade, ânimo, euforia. Pensar em um filme “frio” para abordar como tema uma rodoviária, com todo seu movimento, vida e agonia pode soar como um erro, mas a soma das partes fala mais alto. O ambiente reflete o personagem – ou seria o personagem que reflete o ambiente? Tudo é frio. Desde a reação inicial de não levantar os pés para o funcionário que varre o chão até o momento de sair da cadeira quando alguém se senta a seu lado. Os tons azulados casaram com o personagem e o cenário de forma a construir uma estética rica em seus significados.

Cada um destes detalhes, cada uma das nuanças de Terra Erma refletem uma sensibilidade admirável de Helton Paulino. É explícito e quase suplicante o convite para interpretações pessoais dos mais diminutos detalhes. Um convite a uma terra erma, solitária, mesmo dentro de um ambiente tão cheio de pessoas, das mais diversas idades, com os mais diversos objetivos e experiências de vida. Uma invocação de análise de nossas próprias terras ermas, e eis aqui o foco do vídeo. Falar nesse lugar, mencionado a princípio de forma enigmática no título do curta, é falar de uma introspecção do personagem principal. Não falamos aqui, portanto, da terra erma da rodoviária (que não existe), mas sim da terra erma intrínseca ao personagem, carregada para cima e para baixo como uma mala de viagem em busca de um ônibus que nunca chega.

Mas tudo isso, todo esse conteúdo silencioso, transbordando de imagens bem cuidadas por parte do diretor de fotografia Bruno de Sales, não seria tão expressivo sem a atuação de Gagah. Eis aqui um dos grandes trunfos do filme. O ator apresentado pelo curta consegue captar a alma do texto, construindo um personagem tão sutil quanto as intenções do diretor. Uma interpretação tocante e profunda, rica de pensamentos que tantas vezes parecem audíveis em meio a um roteiro de falas mudas – o que demonstra a entrega de Gagah ao papel. Crédito também seja dado ao diretor de elenco, André da Costa Pinto, que conseguiu um resultado no mínimo satisfatório.

Quando Helton encerrou a apresentação de seu curta, afirmando se tratar de um filme estético, com público ainda existente embora seleto na nossa sociedade, eu me senti quase na obrigação de intervir. Claro que me mantive quieto, mas explicarei melhor minhas palavras. Terra Erma tem sim um apelo estético, mas não acho que isso faça dele um filme desprovido de narrativa. Se ser “estético” é primar por uma arte expressiva, um som envolvente e um roteiro rico de simbologias, então que sejam estéticos todos os filmes de hoje em diante. Sejamos mais profundos e cheios de conteúdo, com filmes que possam realmente ser chamados de Arte. Sejamos criadores de qualidade para que essa terra erma se povoe e, juntos, possamos elevar o nome do audiovisual na Paraíba.

30 de maio de 2008

Reflexões solitárias sobre uma terra conhecida


solitários no cinema tailandês


solitários na rodoviária de CG

Terra Erma, de Helton Paulino

Campina Grande tem apresentado recentemente uma safra de filmes corretos e bem acabados, o que me causa uma certa sensação de entusiasmo e desconforto. Na sessão descrita logo abaixo que apresentou um painel bem significativo do cinema feito em CG, o filme que mais me chama a atenção é Terra Erma, de Helton Paulino. E nem coloco em termos de melhor ou pior, mas sim que ele parece sintetizar um pouco anseios gerais de uma linha específica de pensamento cinematográfico. Nesse ponto, coloco ele bem próximo ao ‘o bolo’ de Taciano. São filmes tecnicamente bem feitos, com roteiros minimalistas, decupagem segura e sem diálogos em sua maioria. Tudo certo, tudo bom, porém não pulsa, não respinga quase nada no espectador, e fica por fim uma sensação de indiferença, mas com certo respeito pelo filme alcançado. Basicamente são filmes como aqueles estudantes que se esforçam pra não errar e acabam conseguindo passar por média (alta por sinal) mas nunca conseguem levar a menina mais linda e popular pro cinema ou marcar algum gol na final do campeonato inter-classes (emoções mais verdadeiras do que elogios pomposos de professores inteligentes).

Mas voltando ao filme. Avante. Terra Erma nos propõe basicamente a experiência de observar um dia normal no instigante espaço da rodoviária. Encontros e partidas sempre renderam e sempre devem render um bom material humano para anseios artísticos. Já do título se sabe que o espaço é o protagonista maior do filme, mas eis que nos aparece um personagem que funciona como um elo ficcional para nos aproximar do painel geral apresentado. Mesmo sendo claramente ficcional, o filme flerta com o documentário (que por sinal já rendeu um DOCTV que se passa na rodoviária de Santa Catarina, me parece) e se mostra bastante antenado com o cinema contemporâneo de boa estirpe, mas não sinto nele a potência de revelação do mundo em todo o seu frescor que é a força motriz do bom documentário observativo ou a fluidez orgânica e concentrada da boa estirpe que cito acima e que falo abaixo.

Trago essa questão do documentário observativo à tona, por achar que o personagem central meio que configura esse observador distante, que só consegue se envolver com os dramas que se desenrolam a sua frente de forma solitária e voyeurística. Fica claro em uma cena na qual ele se afasta de uma mulher que senta ao seu lado. Pra sentir, ele precisa se afastar. E aí reside talvez o grande dilema do filme. Imersão ou distração? Distância ou proximidade? Como sentir o filme, se ele parece cambalear inseguro nessas duas direções?

Primeiro nos parece um filme com pegada realista e o uso do artifício do personagem aumenta a sensação de proximidade com o material filmado, afinal, personagem é o principal trunfo do cinema ficcional para envolver o espectador na ação do filme. Mas temos diversos planos muito baixos que fogem do tom naturalista, mas não estou certo que acrescenta algo ao todo, me dando a sensação simplista de ser uma predileção estética de decupagem ou então de ter o significado raso de serem pessoas (figurantes) anônimas. Mas o principal mesmo é uma sacada original que só interessa realmente ao público cinéfilo e que chama tanta atenção pra si que às vezes me dá a sensação de ‘onde está Wally?’. Deixando mais claro, gosto muito da sacada, mas acho que não se conecta bem com o filme em questão. Dispersa um pouco.

Achei estranha a escolha do cineasta referenciado em uma cerveja. Seria mais legal uma lata com o design da coca, escrito Tsai-Liang, com aquelas perninhas puxadas do refrigerante citado. Afinal, por que sempre prestar homenagens a cineastas já obviamente fodas e sagrados e que todos gostam e caso alguém não goste, o problema é todo seu. Ok, pensando melhor, vamos prestar homenagens ao mestre.


Digressão Tsai: ‘Goodbye Dragon Inn’. Além de lançar um olhar sensível e fascinante sobre um espaço bem conhecido de todos nós, a sala de cinema, Tsai constrói cenas e situações que não devem se esvair da memória tão cedo. Tempos mortos e enquadramentos fixos suscitando uma incomum sensação de vitalidade cinematográfica, nesse ponto, se assemelhando ao cinema de ação física, de igual pra igual com os samurais se enfrentando na tela. Cada vez gosto mais de filmes que desconcertam a ponto de fazer o espectador exercitar o pescoço pra chegar mais perto da tela, literalmente mesmo, ou olhar pro lado procurando cumplicidade nas reações alheias.

No decorrer do ‘Terra Erma’ a exploração do espaço e a curiosidade em perceber a percepção do personagem central vai se esvaindo até o ponto da neutralidade. Uma pena que o filme se encerre com um plano meio forçado demais em sua vontade de descrição metafórica. Tudo muito controlado, sem ar pra respirar e nem saco plástico pra sufocar de uma vez por todas. Talvez seja o grande mérito do filme, talvez seja apenas uma impressão de observador distante.

concluo: ‘Terra Erma’ me faz crer que a cartilha foi aprendida, mas que a rebeldia ainda será mais imponente. O problema é desperdiçar o liquido sagrado da cerveja cinéfila ao final. Um pouco de bebida não faz mal a ninguém.

p.s.: a rodoviária de CG é a 3ª mais organizada do Nordeste.